A caminho

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
– Mario Cesariny
 

Abrir os braços e sentir iguais porções de desalento e esperança. Não que a alegria da esperança ou a melancolia dos desalentos sejam emoções acessíveis nesse momento. Caminho numa confusa e estável dormência de consciência. Atenta. E poderia oferecer jantares aos carros enfileirados. Não haveria filas nos restaurantes. Servir-lhes sobremesas feitas à mão. Com mão nua e baunilha. Oferecer-te mil sobremesas, todas as que não sei fazer. E as faria por esforço e demanda da idade e do coração. Neste ponto, veja só, a escrita já se percebe débil, infantil, impossibilitada de caminhar. Despropositada. Desejo que as linhas tenham alguma razão que me escapa, algum sentido aparentemente subtraído que delas fizessem secretas e delicadas canções de amor, como vidro moído pelas calçadas. De um acidente, de uma garrafa desperdiçada, dos postes de luz com manutenção precária, de vidros já moídos em sua própria forma de existir. Nada disso teria importância subordinado que está à beleza das mãos espalmadas, do ar parado e noturno, da cor do sódio nas luzes, da noção de tempo sem cor, dos vincos na poltrona em Estocolmo, Saigon ou Cidade do Panamá. Regressar para casa sozinho. Conhecer de tal fato o seu volume, sua textura. Ser revelado a ele, ao fato, e respirar o sentimento multiplicável, infinitamente multiplicável para o resto da vida. Cansar-se dele já. Voltar e saber que abrirá a porta e a casa estará vazia. Poderia não estar e isso não faria a menor diferença nesse momento. Irás sentar-te na poltrona um dia imaginada – a de hoje. Em Estocolmo ou Toledo. Lembrarás do meu rosto, do pouco que te escrevi. Curioso do meu destino, dos percalços, da má-sorte que já era aparente na juventude. O tempo que passamos juntos parecerá curto. Terá sido. Entenderás os mecanismos do amor como uma bola de gude, um aquário, um sagu, a membrana de uma célula, a película aquosa que circunda a Terra como uma retina. E os olhos diminuem os intervalos para voltar a piscar. Ver as calçadas, ver a poeira cansada, anônima nas sarjetas secas – secas há dias. A vizinhança inóspita, o itinerário repetido e agora inóspito e a solidão de estar em qualquer lugar. Absolutamente qualquer lugar. Entendo como a vida vale mais que a poesia quando já não faz sentido o que te escrevo. A sensação de ter dois sólidos na mão e não fazer juízo de mim. Nenhuma novidade, quando já não inovamos há algum tempo – a começar pelo básico: nascer e morrer desde sempre. Abrir a porta com cuidado. Não havia nada para oferecer ao cão que despertou. Rigorosamente pouco; à mão, nada. Faz tanto tempo. Faz algum sentido dormir agora e sonhar com doces feitos de mel, com receitas improváveis que jamais te ocorreriam e não ocorreriam a ninguém. Fechar a última porta, a do quarto, sem ter encontrado alguma cifra, alguma pista, página final das palavras-cruzadas, o plano original, a blueprint guardada em potes de barro, soterrada por um vulcão e pelas gerações perdidas subsequentes, selada por suor e paralelepípedos, betume do asfalto e minha sola gasta. A sola já gasta e ciente do facho mais iluminado para que não falseie o pé. Faz realmente muito tempo, nem saberia dizer o quanto. Realmente.

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Males pequeninos, dia de sol

A vida pode ser menos triste em dias de sol. Quero dizer, nada muda efetivamente, mas há sol e alguns poemas que gosto de reler. É esta a melhor imagem que me ocorre para te explicar o alheamento – palavra que ontem pensei para traduzir numbness. Hoje percebo que a tradução não é boa; a imagem tampouco. E as casas continuam cheias de janelas e poucos sítios habitáveis. Em Granada, conheci um polonês; no Porto, um romeno. Pedi-lhes que me ensinassem a dizer teu nome. Ambos riram carinhosamente de minha pronúncia ruim. Disfarcei o despropósito alegando curiosidade religiosa. Pareceu-me convincente naquela altura. Não o foi, claro. Sinto, às vezes, que é isso que tento fazer: permaneço traduzindo teu nome para te manter vivo, para te manter vivo em operações da memória que só te falseiam, te reduzem, te fazem motivo de algum sorriso, algum carinho e débeis desculpas. As coisas que agora te conto não as pensei no mover dos dedos pelo teclado. A ideia da tradução, por exemplo, ocorreu-me enquanto voltava para casa, em Lisboa, e um rapaz muito parecido contigo aguardava o sinal abrir. Ele estava de costas e era realmente parecido contigo. Senti um tipo de vazio no estômago como se o fôlego que retive, submerso no instante, dissolvesse qualquer matéria, ali, dentro de mim. Entenda-me bem: obviamente sabia que não era você, mas por um átimo, no intervalo entre os ponteiros dos segundos, era. Era. Estavas mais magro, cabelo mais curto – a bolsa à tira colo não lhe caiu bem; a tatuagem sim. Sempre um homem tão bonito. Segui caminhando e pensando um texto para tais crises, tais mortes de amor. E ele – o texto e, se calhar, também o amor – terminava por dizer que você se havia ido contra o lusco-fusco, quando os dias demoravam-se mais a terminar. Coisas da primavera, estação tão cruel. Se falo no tempo, não te antecipes. Meu mal não é comentar o passado. Aqueles que assim julgam me entendem tortamente. Cansei-me, segredo-te, das gentes que pensam muito compreender e irmanar, quando, no fundo, bem no fundo, só fazem repetir a si mesmos. Desconfio que percebo melhor as amizades e meu quarto – seja lá onde me é dado aportá-los. Não me perguntes, portanto, sobre os temas e voltas. Contenta-te em saber que, por ora, a sorte que vislumbrei em ti não a encontrei no azar de ninguém. É esta a lógica: da sorte de uns ao custo do azar de outros. Não há para todos; é preciso dividir o acaso, equilibrá-lo. Em Sevilha, discuti o azar. Misturei-o com cerveja e um tira-gosto que me escapa o nome. Confessei minha crença nele, no azar, quando não há de se acreditar. Quero dizer, não há em que se acreditar, porque azar é o nome que achamos para o sem-propósito das coisas: pois é, não deu, não tinha que ser, não era para ser, um dia será. Sorte e azar. E deus não é chamado para aqui. Lá fora, repito, o tempo é bom e tudo isto soa mais pesado do que é. Devo ter esse talento. Devo ter também algum talento para despertar a proteção de homens. Por isso, essas linhas não reclamam pontas de dedos sobre meu rosto. Ao menos foi o que conclui enquanto o avião pousava e eu rememorava esse longo fim de semana europeu. Me dei conta de estar de volta a São Paulo em uma segunda-feira. Estou de volta a São Paulo, cidade de rinites, falta de troco e escadas rolantes desligadas, e isso não me diz muita coisa – ainda. Certa carta a um antigo amor te incomodou um dia. Veja só, agora elas são tuas. Deverias ter lido aquela afinal, quando te ofereci. Como essa, e talvez hoje entendas, não significava nada. O texto tinha alguma beleza. A de hoje provavelmente fique a dever. E isso é uma mentira, daquelas com as quais habitualmente me escondo para justificar a falta de talento. A maçada, o mau uso dos pronomes, a charla antiga. Formas da mesma covardia. Do mesmo amor.

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Menos

-1.

Riu-se ao notar, pelo espelho do banheiro, que eu observava curioso as folhas de um calendário com citações bíblicas e ilustrações de santo: “coisas da minha mãe”. Evitei tatear outros objetos da casa por deles desconhecer a propriedade. Da janela da sala, vi, em olhar descuidado, as torres da refinaria com suas chamas; e, das chamas, a fumaça preta contra o sol. Não me ocupei com o céu da cidade. Qualidade do ar, a rinite alérgica – qual nada. Julguei a manhã com alguma saúde. Era destes instantes em que a vida engendra operações em sua coxia, veladas, sob o nexo de misteriosas satisfações. Tampouco com elas me ocupei. E constatei: o perfume gasto ao meu ombro se apegava; o seu gosto de tédio derrotado à minha língua se prendia. E o nome dito continha apenas saliva minha – e a de ninguém mais.

-2.

Sentados naquela mesa não saberiam dizer o que eram. Sentados naquela mesa saberiam, se tentassem, dizer tão somente o que não eram, o que não poderiam ser, o que não gostariam que fossem. Sentados naquela mesa concordaram em pedir a inteira de manjericão. Meio a meio seria dividir as operações já demais fracionadas. Não eram homens propriamente vitoriosos, mas carregavam cada qual a sua pequena conquista. Às vezes, enquanto conversavam e sem que o outro desse por isso, buscavam-nas no bolso, tocavam-nas, as conquistas, para se certificarem de que ali permaneciam. Esperavam, incertos, o momento de partilhá-las; estavam juntos, afinal, para celebrá-las. Existem tais indivíduos no mundo: inábeis nos exercícios da alegria, reconhecem-se e instintivamente permanecem sentados em mesas como aquela – titubeantes, sinceros. Não mencionaram frustrações e fastios. Coisas em demasia. Dividiram apenas as triviais: a sobremesa, o enxague bucal, o dormiu bem?. Diriam, como o fazia minha avó, que é esta uma conta de menos.

Recordo-os que em multiplicações, as de mesas como aquela, por princípios algébricos que desconheço mas os sei pela cartilha: menos e menos é mais. Foi quando calaram o que, por ofício, restituo às suas bocas: – Obrigado.

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Nana Caymmi – Como yo te amé

hermosas formas

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Variação de “Tráfego” – sem mencioná-lo

Funciono como essas doenças silenciosas de longa incubação. Os sintomas indicam que é tarde demais.  Tenho mais força nos braços do que nas pernas. As mãos, contudo, são demasiado pequenas. Donde se conclui que posso carregar; reter, pouco. Gosto de dar presentes, não gosto de gastar dinheiro: he likes giving presents, but finds it hard to forget what each one cost – Auden já disse. Ao contrário de muita gente, não me preocupo com poupanças quando penso em ter filhos. Quando argumentam que não se pode confiar felicidade em outra pessoa, antecipo que me entendem mal. Não é disso que falo. Não protesto, porém. Percebo quão alta é a probabilidade de se ter os gestos e falas mal interpretados. Passo a contentar-me com incompreensões que não ofendam. Perco progressivamente o entusiasmo vaidoso em falar das coisas que conheço, porque as conheço muito pouco. As horas com números repetidos parecem cada vez mais frequentes. E já desconfio que consulto em excesso as lições do relógio. Tenho dificuldade para festejar minhas conquistas; esforço-me para reconhecê-las propriamente. Não quero comer Caetano. Mas continuarei a atender quaisquer convites para ver o mar quebrando na praia. É bonito.

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Sítio arqueológico do Caderno Azul III

[…] Às vezes me faltam lágrimas; é quando nada digo, nada faço. Desejei duas coisas: que não passássemos e que meu cobertor me mantivesse quente, suficientemente quente até amanhecer. Tornei a desejar: que meus pensamentos fossem dados a ver por um corte vertical à maneira dos formigueiros no zoológico. É da natureza do adeus conhecer o zoológico?, me pergunto. Será possível, como é hábito das crianças, repetir inúmeras vezes o lugar preferido sem o menor cansaço? Enquanto tentava dormir novamente, conjecturava em qual lado do corpo faria mais frio. Acordo e estas linhas, sob efeito de melancolia, fazem pouco ou nenhum sentido. É da natureza do adeus esquecer-se do sentido? A casa está vazia. O playground frente à janela, vazio. Abro a cortina, respiro. Não desejo, mas espero que não te acostumes ao esquecimento. Respiro e assim procuro preencher os cantos com ar e os restos de hálito que conservei da madrugada. […]

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Tráfego

Tenho me movido pouco. O que fiz foi aumentar o raio da circunferência em torno do mesmo centro. E o centro é a casa. Vivi até então sob o regime do risco mínimo, do mínimo prejuízo. Sigo a cartilha de meu pai que ensinou a profilaxia classe-média da poupança e do horror à dívida. Piso em falso por condição dos pés chatos. Sou um sujeito metido a frágil, com mais cicatrizes do que cortes e muito medo. Penso em demasia. O vício me ensinou a pensar engenhosamente cada vez mais e pior a ponto de que presente algum desse prova de felicidade duradoura. Dela desconfio. Tento também desconfiar da esperança: nunca consegui. Tenho mãos arredias, pequenas, cheia de tremores que aprendi a esconder, todos, com a lição materna do sorriso e ouvidos prontos a dar e, muitas vezes, esquecidos de contrapartida. Nunca fui bom de começos, por assim dizer. Em verdade, sempre me forcei ao atraso para melhor me preparar. Depois, sempre julguei necessário recomeçar para corrigir. Tudo desculpa, truque. Sou um afterthought que ainda não se cumpriu. Do subúrbio de onde vim, trago a pressa ansiosa e a incurável sensação de que não vai dar tempo. Do subúrbio de onde vim, carrego as grandes proporções que, em escala, transpus aos meus gestos de ópera e, sobretudo, aos arroubos de paixão. E por ironia, dela, da paixão, invariavelmente me queixei do mau trânsito.

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